15/05/2026
Bares e restaurantes seguiram, em abril, segurando preços, tornando consumo fora do lar mais competitivo
A inflação da alimentação fora do domicílio desacelerou em abril e registrou alta de 0,59%, abaixo do índice geral do IPCA, que ficou em 0,67%, segundo dados divulgados pelo IBGE. A diferença se torna ainda mais evidente na comparação com os custos enfrentados pelo setor: o grupo de alimentação e bebidas, que reúne os principais insumos utilizados por bares e restaurantes, teve alta de 1,34%. A alimentação no domicílio, por sua vez, atingiu 1,64%.
O descompasso evidencia o esforço dos empreendedores para conter reajustes nos cardápios, mesmo diante da pressão sobre os custos operacionais. Pesquisa recente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel mostrou que mais de um terço (36%) dos estabelecimentos não conseguiu reajustar os preços nos últimos 12 meses. Em um cenário de renda mais comprometida e consumo cauteloso, o setor busca evitar aumentos que possam afastar clientes e reduzir o movimento.
A contenção dos preços ocorre em meio a alta do endividamento das famílias brasileiras. Segundo a CNC, o percentual de famílias endividadas atingiu 80,9% em abril, enquanto a inadimplência chegou a 29,7%. Com menos espaço no orçamento, despesas consideradas mais flexíveis, como refeições fora de casa, passam a ser avaliadas com maior rigor pelos consumidores.
Para o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, o setor enfrenta um cenário de equilíbrio delicado entre custos crescentes e demanda enfraquecida.
“Os insumos continuam pressionando os negócios, mas o consumidor está mais sensível a reajustes. Em muitos casos, os estabelecimentos preferem absorver parte desses aumentos para manter o fluxo de clientes e preservar o consumo”, afirma.
O movimento ajuda a explicar por que a inflação da alimentação fora do lar segue abaixo da alta registrada no grupo de alimentação e bebidas, apesar da pressão acumulada sobre itens essenciais da operação. Energia, matérias-primas, aluguel e custos trabalhistas continuam impactando a estrutura financeira dos estabelecimentos, reduzindo margens e limitando a capacidade de recomposição de preços.
No acumulado de 12 meses, a alimentação fora do lar registra alta de 6,31%, com leve desaceleração em relação aos 6,54% observados no mês anterior. Apesar disso, o índice ainda permanece acima da inflação geral do país, que acumula 4,39% no período. Entre os itens com maior avanço estão os lanches, com alta de 9,60%, e o cafezinho, que acumula elevação de 8,51% em 12 meses.
Imposto seletivo trará impacto contábil para o setor
A implementação do Imposto Seletivo (IS) sobre bebidas alcoólicas e açucaradas, prevista para 2027 como parte da reforma tributária, trará um impacto contábil imediato e deve impor um cronograma rigoroso de adaptação para o setor de alimentação fora do lar. Para médias e grandes operações, como redes de restaurantes, franquias e distribuidoras, o novo modelo exigirá uma revisão profunda na formação de preços e um esforço para garantir a continuidade da operação diária.
Eduardo Natal, sócio do escritório Natal & Manssur Advogados e conselheiro da Associação Brasileira da Advocacia Tributária (Abat), explica que o IS terá incidência monofásica, o que inviabiliza a compensação tributária.
“A incidência monofásica do Imposto Seletivo, especialmente sobre bebidas alcoólicas, produz um efeito direto: o tributo deixa de ser recuperável ao longo da cadeia e passa a integrar o custo efetivo das operações. Isso significa que o imposto pago na origem se incorpora ao preço de aquisição e acompanha toda a cadeia até o consumidor final”, detalha o tributarista.
Na prática, o modelo rompe com a lógica de valor agregado adotada para outros tributos da reforma, eliminando o creditamento.
Segundo ele, trata-se de um custo fixo não recuperável que fatalmente pressionará as margens de lucro das empresas de food service, exigindo manobras comerciais.
Diante do choque no caixa, o setor terá que decidir entre absorver o impacto ou encarecer o cardápio.
“A forma e a intensidade desse repasse dependerão da estratégia de cada empresa e da sua capacidade de absorver parte desse impacto. Mas, do ponto de vista econômico, é natural que esse custo seja refletido nos preços, em linha com a lógica da própria reforma, que concentra a tributação no consumo ao final da cadeia”, conclui.
Fonte: Monitor Mercantil